sexta-feira, 23 de maio de 2014

Livro 3 O cavalo e seu menino Capítulo 12 - Shasta em Nárnia

“Foi tudo um sonho?”, indagava Shasta para si mesmo. Mas não podia ter sido um sonho, pois via na relva a grande e penetrante marca da pata direita do Leão. Que peso devia ter!
O mais espantoso, porém, veio depois: a depressão começou a encher-se de água e transbordou, formando uma correnteza que começou a descer pela relva.
Shasta matou a sede com um bom gole, molhou o rosto e a cabeça. Era uma água fria e clara como o cristal. Sacudindo a cabeça molhada, começou a observar o que se passava em redor.
Parecia ser ainda muito cedo. A paisagem era completamente nova a seus olhos, um vale verde, respingado de árvores, através das quais pôde ver o reflexo de um rio que seguia para o noroeste. Serras rochosas alteavam-se na distância. Virando-se, viu que a elevação na qual se encontrava pertencia a um bloco montanhoso bem mais alto.
— Estou entendendo: aquelas são as montanhas entre Arquelândia e Nárnia. Eu estava do lado de lá, ontem. Devo ter passado pelo desfiladeiro durante a noite. Que sorte! Sorte coisa nenhuma, foi Ele. E agora estou em Nárnia.
Tirou a sela e o freio do cavalo, dizendo: “Eta cavalinho ruim!” Sem tomar conhecimento, o animal começou a pastar; ele também não tinha uma boa opinião sobre Shasta.
— Ah, se eu gostasse de grama! Bem, não adianta nada voltar a Anvar, toda sitiada. É melhor procurar alguma coisa para comer lá embaixo no vale.
Sentindo o orvalho gelado nos pés descalços, chegou a uma mata. Passou a seguir uma espécie de trilha sob as árvores e logo depois ouviu uma vozinha:
— Bom dia, vizinho.
Tentou localizar quem falara e acabou descobrindo uma criatura toda espinhenta que acabava de enfiar a carinha escura entre as árvores. Era um porco-espinho. Shasta respondeu:
— Bom dia, mas não sou vizinho. Sou um forasteiro por estas bandas.
— Hum? — fez o porco-espinho, inquisidor.
— Vim pelas montanhas... lá de Arquelândia, sabe?
— Uma boa caminhada! Nunca fui lá.
— E acho que alguém deve saber que um exército de ferozes calormanos está atacando Anvar neste instante.
— Não diga! Que coisa! E contam que os calormanos habitam a centenas ou milhares de quilômetros daqui, lá no fim do mundo, depois de um marzão de areia!
— Não é tão longe quanto você pensa. Alguma coisa precisa ser feita. O seu Grande Rei precisa saber...
— É claro, é preciso fazer alguma coisa. Acontece que estou indo para a cama tirar uma soneca. Alô, vizinho.
As últimas palavras foram endereçadas a um coelho cor-de-sorvete-de-nata, cuja cabeça acabara de apontar ao lado do caminho. Pelo porco-espinho, o coelho ficou a par da situação. Concordou também que eram notícias graves e que alguém tinha de procurar alguém para que alguma coisa fosse feita.
E assim foi. A cada instante novas criaturas surgiam, algumas dos galhos das árvores, outras de debaixo da terra, até que a reunião ficou integrada por cinco coelhos, um esquilo, duas gralhas, um fauno e um camundongo. Todos falavam ao mesmo tempo e todos estavam de acordo com o porco-espinho.
A verdade era esta: naquela era de ouro e paz, quando a feiticeira e o inverno não reinavam mais, e o Grande Rei Pedro governava em Cair Paravel, os serezinhos dos bosques de Nárnia se sentiam tão felizes e seguros que acabaram se tornando descuidados.
Mas naquele momento duas pessoas mais práticas chegaram à mata. Uma era um anão vermelho cujo nome parecia ser Dufles. A outra era um cervo, uma bela e senhorial criatura de olhos límpidos, com flancos e pernas tão esguios que pareciam poder quebrar-se à força de dois dedos.
— Salve o Leão! — exclamou Dufles, ao inteirar-se das notícias. — O que estamos fazendo aqui parados, batendo boca? Inimigos em Anvar! A notícia tem de ser enviada imediatamente a Cair Paravel. O exército deve ser convocado. Nárnia deve levantar-se para socorrer o rei Luna.
— Ah! — exclamou o porco-espinho. — Mas você não vai achar o Grande Rei em Cair. Foi para o Norte, dar uma tunda naqueles gigantes. Aliás, por falar em gigantes...
— Quem levará a nossa mensagem? — interrompeu o anão. — Existe alguém aqui mais veloz do que eu?
— Eu sou veloz — respondeu o cervo. — Qual é a mensagem? Quantos calormanos?
— Duzentos, chefiados por Rabadash. Além disso...
Mas o cervo já estava longe, batendo de uma só vez no chão com as quatro patas.
— Não sei para onde ele vai — disse o coelho — pois não encontrará o rei em Cair Paravel.
— Encontrará a rainha Lúcia — disse Dufles. — E... o que está havendo com o humano? Está verdinho. Está desmaiando e deve ser de fome. Quando você comeu pela última vez, jovem?
— Ontem de manhã — respondeu Shasta, fracamente.
— Venha comigo — falou o anão, passando o seu bracinho pela cintura de Shasta a fim de ampará-lo. — Vizinhos, que vergonha!
Murmurando acusações a si mesmo, o anão conduziu Shasta para dentro da mata.
As pernas do menino tremiam quando chegaram a uma casinha com chaminé e fumaça. Entraram pela porta aberta e Dufles gritou:
— Alô, irmãos, temos uma visita para o café.
Um cheiro simplesmente delicioso chegou até Shasta. Era a primeira vez que sentia o aroma de ovos com lombo defumado e cogumelos a estalar na frigideira.
— Cuidado com a cabeça — disse Dufles.
Mas já era tarde, pois Shasta acabava de meter a testa na verga da porta.
— Sente-se agora, rapaz. A mesa é um pouco baixa para você, mas o banquinho também é baixo. Perfeito. E aqui está o mingau... e aqui uma jarra
de creme de leite... e aqui uma colher.
Shasta já havia terminado o mingau quando os dois irmãos do anão – Rogin e Deduro – serviram o prato de lombo com ovos e cogumelos. E mais ainda: café, leite e torradas.
Era um paladar novo e delicioso para Shasta. Era a primeira vez que via torradas. Também pela primeira vez via aquela coisa macia e amarela que passavam na torrada, pois os calormanos usam, quase sempre, óleo em vez de manteiga. E a própria casa era muito diferente da choupana escura e cheirando a peixe de Arriche, como também era diferente dos salões atapetados dos palácios de Tashbaan. O teto era baixinho e tudo era feito de madeira. Havia um relógio-cuco, uma toalha de mesa com quadradinhos vermelhos e brancos, uma jarra de flores silvestres e cortinas alvas nas janelas.
O que atrapalhava um pouco era ter de usar os talheres e as xícaras dos anões. Mas o seu pratinho estava sempre cheio, e a todo instante os anões diziam “manteiga, por favor”, ou “uma outra xícara de café”, ou “um pouco mais de cogumelo”, ou “que tal se a gente fritasse mais uns ovinhos”...
Depois de comerem até não poder mais, os anões tiraram a sorte para saber quem lavaria os pratos. Rogin deu azar.
Dufles e Deduro levaram Shasta para um banco rente à parede externa; espicharam todos as pernas, com grandes suspiros de satisfação; os anões acenderam seus cachimbos.
O sol estava quente e o orvalho desaparecera da relva: chegaria a ser quente demais se não soprasse uma leve viração.
— Agora, forasteiro — disse Dufles — vou mostrar-lhe a terra. Daqui se pode ver praticamente todo o sul de Nárnia, e temos certo orgulho da nossa paisagem. Ali à esquerda, depois daquelas serras, você pode apreciar as montanhas do Oeste. Aquela colina arredondada à direita é a Colina da Mesa de Pedra. Logo ali...
E aí foi interrompido por um ronco de Shasta, morto de sono pela viagem noturna e pela excelente refeição. Os anões fizeram sinais um para o outro para não despertá-lo. E cochicharam tanto, e tantos gestos fizeram enquanto se retiravam, que Shasta teria despertado, se não estivesse exausto.
O menino dormiu o dia inteiro e só acordou para cear. As camas eram pequenas demais para ele, mas os anões arranjaram-lhe uma cama de urze no chão. Shasta nem sequer se virou no leito, nem tampouco sonhou durante toda a noite. Na manhã seguinte, haviam acabado de tomar café quando ouviram um barulho empolgante:
— Trompas! — disseram os anões.
Saíram todos correndo para fora.
As trompas soaram de novo: não tão solenes como as de Tashbaan, não tão alegres quanto as do rei Luna – claras, agudas, empolgantes. O ruído, vindo das matas do oriente, logo se misturou ao barulho de cascos de cavalos. Logo depois surgiu à frente deles um batalhão.
Vinha em primeiro lugar o Senhor de Peridan, montando um cavalo baio, empunhando o grande pavilhão de Nárnia: um leão vermelho em campo verde. Shasta o reconheceu imediatamente.
Depois, três cavaleiros, dois em cavalos de batalha e um sobre um pônei. Os dois primeiros eram o rei Edmundo e uma dama de cabelos louros, com um rosto muito jovial, usando elmo e malha de ferro, levando além disso um arco cruzado nos ombros e um carcás cheio de flechas. (“A rainha Lúcia”, murmurou Dufles.) O do pônei era Corin.
Seguia-se o principal corpo do exército; homens em cavalos comuns, homens em cavalos falantes (que não se incomodavam de ser montados em ocasiões especiais), centauros, ursos, grandes cães falantes e, por fim, seis gigantes.
Pois há gigantes bons em Nárnia. Apesar disso, Shasta mal teve coragem de olhar para eles; leva muito tempo para a gente se acostumar com certas coisas.
Assim que o rei e a rainha chegaram à cabana, os anões começaram a fazer profundas reverências, e Edmundo tomou a palavra:
— Alto! Aqui, amigos, vamos ter um pequeno descanso.
Foi uma algazarra: gente descendo dos cavalos, conversas, mochilas sendo abertas... Corin veio correndo e agarrou Shasta pelas mãos.
— Não é possível! Você por aqui! Que alegria! Mas a coisa está feia. Mal tínhamos chegado a Cair Paravel, ontem pela manhã, quando encontramos o cervo com as novas de um ataque a Anvar. Você não imagina...
— Quem é o amigo? — perguntou o rei Edmundo ao apear.
— Não está vendo, senhor? É o meu sósia: o rapaz que foi confundido comigo em Tashbaan.
— Olhe só! — exclamou a rainha Lúcia. — Parecem gêmeos. Que coisa mais fantástica!
— Majestade, por favor — disse Shasta para o rei Edmundo. — Não fui um traidor, não mesmo. Tive que ouvir os planos. Mas jamais passou pela minha cabeça contar para os inimigos o que ouvi...
— Estou vendo agora que você não é um traidor, rapaz — disse o rei Edmundo, colocando a mão sobre a cabeça de Shasta. — Mas, se não quiser passar por traidor, da próxima vez não ouça o que não é para os seus ouvidos. Mas está tudo bem.
Eram tantas ordens e idas e vindas que, por uns minutos, Shasta perdeu Corin de vista. Depois ouviu o rei Edmundo dizer bem alto:
— Pela juba do Leão, príncipe, já é demais! Será que Vossa Alteza jamais tomará jeito? Você dá mais trabalho do que todo um exército!
Shasta embarafustou-se pela multidão e viu que o rei Edmundo parecia de fato muito zangado. Corin, por sua vez, mostrava-se um pouco envergonhado; e havia um estranho anão sentado no chão, fazendo caretas, enquanto dois faunos o ajudavam a livrar-se da armadura.
— Se tivesse trazido meu tônico — disse a rainha Lúcia — daria um jeito nisso. Mas o Grande Rei não quer que eu o leve às guerras comuns; devo guardá-lo para os casos de extrema necessidade.
Acontecera o seguinte: depois de falar com Shasta, Corin fora puxado pelo cotovelo por um anão-soldado que se chamava Espinhei.
— Que há, Espinhei? — Corin perguntou.
O anão respondeu:
— Alteza, nossa marcha de hoje nos levará ao desfiladeiro à direita do castelo de seu pai. Podemos estar lutando antes do anoitecer.
— Sei disso — respondeu Corin. — Sensacional!
— Sensacional ou não — retornou Espinhei — tenho ordens estritas do rei Edmundo para impedi-lo de entrar na luta. Mas você poderá assistir à batalha, e isso já é o suficiente para a sua idade.
— Que besteirada! — explodiu Corin. — É claro que vou entrar na luta. Até a rainha Lúcia vai formar com os arqueiros.
— A rainha pode fazer como ela quiser — respondeu Espinhei. — Vossa Alteza é que está sob a minha guarda. E tem de jurar solenemente que ficará ao meu lado, até que lhe dê autorização para partir. Do contrário – é a palavra de Sua Majestade – teremos de seguir com os punhos amarrados como dois prisioneiros.
— Eu lhe sento a mão na cara se tentar me amarrar — disse Corin.
— Gostaria de ver Vossa Alteza fazer isso.
Era o suficiente para um rapazinho como Corin. Em um segundo ele e Espinhei estavam embolados no chão. Teria sido uma boa luta: Corin era mais alto e de mais envergadura, mas Espinhei era mais velho e mais forte. Mas não houve luta: por pura falta de sorte, Espinhei pisou numa pedra solta e tacou o nariz no chão. Quando tentou levantar-se, viu que havia torcido o tornozelo, uma torção que o impediria de andar ou cavalgar durante umas duas semanas.
— Veja o que fez — disse o rei Edmundo. — Privou-nos de um guerreiro experimentado na hora da luta!
— Eu tomo o lugar dele, Majestade — disse Corin.
— Escute! — falou Edmundo. — Ninguém duvida da sua coragem. Mas um rapazinho numa batalha só é um perigo para o seu próprio lado.
O rei foi chamado para decidir outra coisa, e Corin, após desculpar-se cavalheirescamente com o anão, correu até Shasta e murmurou:
— Depressa! Há um cavalo sobrando e a armadura do anão. Meta-se nela antes que alguém veja.
— Para quê?
— Ora bolas! Para que possamos entrar na batalha! Não vai querer?
— Oh, ah... é... claro... quero — Shasta não contava com essa e começou a sentir um calafrio na espinha.
— Ótimo — disse Corin. — Levante a cabeça. Agora, o cinto da espada. Devemos ir no fim da fila e mais quietos do que camundongo. Depois que a batalha começar, não terão tempo de se lembrar de nós.

Livro 3 O cavalo e seu menino Capítulo 11 - Um viajante sem as boas-vindas

Quando Shasta transpôs o portão, viu à sua frente um declive coberto de grama e de pequenas urzes, que ia dar numas árvores. Naquele momento não conseguia pensar em nada, não dava para fazer planos: o importante era correr.
Às vezes tropeçava e por pouco não torceu o tornozelo nas pedras soltas. As matas tornavam-se mais fechadas e o sol se fora, mas nem por isso o calor diminuíra. Era um desses dias em que os mosquitos parecem multiplicar-se. Cobriam a cara de Shasta, que nem se dava ao trabalho de espantá-los.
Tataratatá!
O menino ouviu de repente um som alegre de trompas. Daí a pouco já se achava numa grande clareira, no meio de uma multidão. Para ele, pelo menos, pareceu uma multidão. Eram só quinze ou vinte cavalheiros em trajes de caça, com suas montarias. No centro, alguém segurava o estribo para que outro montasse. E este outro era um rei, o rei mais jovial, mais gordinho, mais cara-de-maçã, mais pisca-pisca que se pode imaginar.
O rei desistiu logo de montar quando Shasta apareceu. Estendeu os braços para o menino e o seu rosto se iluminou, ao gritar, com uma profunda voz de baixo:
— Corin! Meu filho! Descalço... e em farrapos! O que...
— Príncipe Corin, não — disse Shasta ofegante. — Pareço... sei... com ele... encontrei Sua Alteza em Tashbaan... manda lembranças...
O rei contemplava Shasta com uma expressão de extraordinário espanto.
— É o rei Luna? — Não esperou resposta: — Senhor rei... vá voando para Anvar... feche as portas da cidade... inimigos... Rabadash com duzentos cavalos.
— Tem certeza disso, rapaz? — perguntou um outro cavalheiro.
— Vi com os meus próprios olhos. Vim correndo na frente desde Tashbaan.
— A pé? — perguntou o cavalheiro, enrugando um pouco a testa.
— Cavalos... com o eremita — respondeu Shasta.
— Chega de perguntas, Darin — disse o rei Luna. — Vejo pela carinha dele que está falando a verdade. Vamos montar. Arranjem um cavalo para o rapaz. Sabe galopar, meu amigo?
Em resposta, Shasta meteu o pé no estribo, logo que lhe trouxeram o cavalo, e pulou para a sela. Fizera isso com Bri umas cem vezes nas últimas semanas. Já não parecia um saco de feno.
Ficou contente ao ouvir o lorde Darin falar para o rei:
— O rapaz tem a postura de um verdadeiro cavaleiro, Majestade. Garanto que tem sangue nobre.
— O sangue dele, aí é que está a questão — respondeu o rei, fixando os olhos em Shasta, com aquela curiosa e ansiosa expressão.
Movimentaram-se todos. Se a postura de Shasta era correta, o freio o atrapalhava, pois jamais usara aquilo quando no dorso de Bri. Com o rabo do olho viu o que os outros faziam (como a gente faz num banquete, quando não sabe qual faca ou garfo deve usar). Mas nem mesmo ousava dirigir o cavalo; sabia que este seguiria os outros. Embora não fosse um cavalo falante, o animal tinha bastante inteligência para perceber que o garoto não usava chicote nem esporas e que não era de todo senhor da situação. Shasta acabou fechando a fila.
Respirando bem, sem mosquitos, missão cumprida, pela primeira vez (desde a chegada a Tash-baan, há tanto tempo!) começava a divertir-se.
Estranhou por não ver no alto os picos das montanhas, pois nunca estivera numa região montanhosa. “São nuvens, já sei. Aqui nas montanhas estamos no céu. Quero saber como é dentro de uma nuvem. Que gozado!” O sol estava quase sumindo à esquerda.
Seguiam por uma estrada áspera, em boa velocidade. A certa altura, entraram no nevoeiro, ou o nevoeiro veio para cima deles. Ficou tudo cinzento. O cinzento foi virando pardo com alarmante rapidez.
À frente da coluna, de quando em quando, soava a trompa, e a cada vez o som parecia vir de mais longe. Shasta por um instante não viu os outros, esperando que, ao fazer a curva, os descobrisse. Pois fez a curva e não viu nada. O cavalo ia a passo.
“Vamos, cavalinho, vamos!” Ouviu então a trompa, muito fraca. Tinha a impressão de que alguma coisa horrorosa aconteceria se cutucasse um cavalo com os calcanhares. Mas parecia o momento de tentar.
— Escute uma coisa, cavalinho: se você não correr, meto meus calcanhares na sua barriga!
O cavalo não tomou conhecimento da ameaça. Shasta firmou-se na sela, agarrou-se com os joelhos, cerrou os dentes e tacou os calcanhares no cavalo com toda a força.
Resultado: o cavalo troteou, ou coisa parecida, cinco ou seis passos, e voltou à boa vida. Já estava escuro. “Teriam esquecido de tocar a trompa?, pensou. “Bem, de qualquer forma, mesmo a passo devemos chegar a algum lugar. Só espero que nesse lugar não esteja Rabadash com a sua gente.”
Começou a sentir raiva daquele cavalo; e também começou a sentir fome. Estava chegando a um ponto em que a estrada fazia uma bifurcação. Qual seria o caminho de Anvar? Foi quando ouviu um barulho pelas costas, um ruído de cavalos a trote. “É Rabadash!”, pensou. “Que estrada devo pegar? Se eu tomar uma, ele pode pegar a outra; mas, se fico aqui na encruzilhada, eu é que vou ser pego.” Apeou e conduziu o cavalo pelo caminho da direita.
Aproximava-se o som da cavalhada. Já deviam estar na encruzilhada. Com a respiração presa, ficou aguardando. Que caminho tomariam?
Ouviu um brado: “Alto!” Depois, ruídos cavalares, ventas assoprando, cascos golpeando, tapinhas em pescoços. E uma voz falou:
— Atenção! Já estamos perto do castelo. Lembrem-se das instruções. Devemos chegar a Nárnia ao nascer do sol; matem o menos possível. Nesta incursão, um litro de sangue narniano é mais precioso que três litros do seu próprio sangue.Nesta incursão, eu disse! Os deuses hão de propiciar-nos uma hora mais feliz, aí vocês não deixarão nada vivo entre Cair Paravel e o Deserto do Oeste. Mas ainda não chegamos a Nárnia. É diferente aqui na Arquelândia. Só a rapidez importa no assalto ao castelo do rei Luna. Será meu, dentro de uma hora. Mostrem o seu valor. O castelo será de vocês. Nada quero da pilhagem. Executem todos os machos bárbaros dentro das muralhas, até mesmo os recém-nascidos, e o resto será de vocês: mulheres, ouro, joias, armas e vinho. O homem que hesitar ao cruzar as portas do castelo será queimado vivo. Em nome de Tash, o irresistível, o inexorável... em frente!
Com grande estrépito, a coluna adiantou-se e Shasta pôde respirar: tinham tomado o outro caminho. Levaram um tempo enorme para passar, pelo menos era o que parecia, e só então Shasta realmente compreendeu o que significavam “duzentos cavalos”. Quando o estrépito desapareceu, só ficou o doce barulho das ramagens.
Sabia o caminho para Anvar, mas não podia ir para lá. Seria correr para os braços armados dos homens de Rabadash. “Que diabo de coisa posso fazer?” Não tendo resposta para si mesmo, montou de novo e seguiu pela estrada que havia escolhido, na vaga esperança de encontrar uma cabana na qual pudesse pedir abrigo e comida. Lembrou-se, é claro, de retornar à casa do eremita, mas já não tinha a menor ideia da direção. A estrada deveria ir para algum lugar.
Sim, mas isso depende do que chamamos de algum lugar. A estrada no caso seguia entre as matas mais espessas, sempre mais frias. Ventos gelados continuavam a impelir blocos de névoa sobre Shasta sem parar. Não estando acostumado aos lugares montanhosos, ignorava que estava a uma grande altitude, talvez já no alto da picada.
“Devo ser o cara mais desgraçado de todo o mundo”, pensou. “Tudo dá certo com os outros, comigo nunca. Os nobres e as damas de Nárnia conseguiram fugir de Tashbaan; eu fiquei lá. Aravis, Bri e Huin estão no bem-bom com o velho eremita; fui o único a ter de sair. O rei Luna e sua gente estão a salvo no castelo, com os portões bem fechados, mas eu fiquei de fora.”
Teve tanta pena de si mesmo que as lágrimas começaram a deslizar por seu rosto.
Um susto interrompeu os seus tristes pensamentos. Alguém ou alguma coisa caminhava a seu lado. Nas trevas não podia ver nada. E a coisa (ou pessoa) ia tão silenciosamente que ele mal podia ouvir suas pisadas. Ouvia, sim, uma respiração: o invisível companheiro de fato respirava com vontade; devia ser uma criatura enorme. Foi um grande choque.
Relampejou na sua cabeça uma lembrança: ouvira dizer que existiam gigantes nos países do Norte. Mordeu os lábios, apavorado. Mas, agora que tinha um motivo real para chorar, parou de chorar.
coisa (se é que não era uma pessoa) ia tão silenciosa que talvez fosse mera imaginação. Já estava certo disso, quando ouviu ao seu lado um suspiro grande e profundo. Não era imaginação! O fato é que sentiu o hálito quente desse longo suspiro na mão direita.
Se o cavalo fosse mesmo bom – ou se ele soubesse como fazer o cavalo tornar-se bom – teria arriscado tudo numa corrida desabalada. Como isso não era possível, seguiu a passo, com o companheiro invisível caminhando e respirando a seu lado. Acabou não aguentando mais:
— Quem é você? — murmurou baixinho.
— Alguém que esperava por sua voz — respondeu a coisa.
O tom não era alto, mas amplo e profundo.
— Você é... um gigante?
— Pode me chamar de gigante — disse a grande voz. — Mas não me pareço com as criaturas que você chama de gigantes.
— Não consigo vê-lo — falou Shasta, depois de muito tentar.
Uma coisa terrível lhe passou pela cabeça. Com a voz quase trêmula de choro, perguntou:
— Você não é... não é uma coisa morta... é? Vá embora, por favor. Nunca lhe fiz mal. Ó, sou o sujeito mais desgraçado do mundo!
Sentiu novamente o hálito quente da coisa no rosto e na mão.
— Morto não respira assim. Pode me contar as suas tristezas, rapaz.
O hálito deu a Shasta um pouco mais de confiança. Contou então que jamais conhecera pai e mãe, que fora criado por um pescador muito severo. Contou sobre como fugira, sobre os leões que os perseguiram, os perigos em Tashbaan, a noite entre os túmulos, as feras que uivavam no deserto, o calor e a sede durante a caminhada, e o outro leão que surgiu quando estavam quase chegando, Aravis ferida... Contou, por fim, que estava com fome, pois não comia nada havia muito tempo.
— Não acho que seja um desgraçado — disse a grande voz.
— Mas não foi falta de sorte ter encontrado tantos leões?
— Só há um leão — respondeu a voz.
— Não estou entendendo nada. Havia pelo menos dois naquela noite...
— Só há um leão, mas tem o pé ligeiro.
— Como sabe disso?
— Eu sou o leão.
Shasta escancarou a boca e não disse nada. A voz continuou:
— Fui eu o leão que o forçou a encontrar-se com Aravis. Fui eu o gato que o consolou na casa dos mortos. Fui eu o leão que espantou os chacais para que você dormisse. Fui eu o leão que assustou os cavalos a fim de que chegassem a tempo de avisar o rei Luna. E fui eu o leão que empurrou para a praia a canoa em que você dormia, uma criança quase morta, para que um homem, acordado à meia-noite, o acolhesse.
— Então foi você que machucou Aravis?
— Fui eu.
— Mas por quê?!
— Filho! Estou contando a sua história, não a dela. A cada um só conto a história que lhe pertence.
— Quem é você?
— Eu mesmo — respondeu a voz, com uma entonação tão profunda que a terra estremeceu. E de novo: — Eu mesmo — com um murmúrio tão suave que mal se podia perceber, e parecia, no entanto, que esse murmúrio agitava toda a folhagem à volta.
Shasta já não temia que a voz pertencesse a alguma coisa que o devorasse; nem temia que fosse a voz de um fantasma. Uma coisa nova aconteceu, um tremor que lhe deu certa alegria.
A névoa passou do pardo para cinza e do cinza para branco. Devia ter começado pouco antes, enquanto ele estava absorvido conversando com a coisa.
A brancura ao redor já começava a fulgir. Passarinhos cantavam em algum lugar. A noite estava por um fio. Já enxergava bastante bem a crina e as orelhas do cavalo. Uma luz dourada surgiu à esquerda, e Shasta pensou que fosse o sol.
Caminhando a seu lado, maior do que o cavalo, estava um Leão. O cavalo não parecia ter medo, ou talvez não o visse. Era dele que vinha a luz dourada. Ninguém jamais viu algo tão belo e terrível.
Felizmente, o menino vivera toda a sua vida no Sul, e não havia escutado os casos, cochichados em Tashbaan, sobre um tétrico demônio de Nárnia que costumava aparecer na forma de leão. E, naturalmente, também tudo ignorava sobre as verdadeiras histórias de Aslam, o Grande Leão, o filho do Imperador-dos-Mares, o Rei dos Grandes Reis de Nárnia. Mas, depois de espiar mais uma vez o Leão, pulou do cavalo. Não conseguia dizer nada, mas também não queria dizer nada, e sabia que nada precisava dizer.
O Grande Rei encaminhou-se para ele. A juba e um perfume estranho e solene, que nela pairava, cercaram o menino. O Leão tocou a fronte de Shasta com a língua. Os olhos de ambos encontraram-se. Depois, instantaneamente, a brancura da névoa misturou-se com o brilho ardente do Leão, num redemoinho de glória, e os dois sumiram.
Shasta se viu só, com o cavalo, na relva de uma colina, sob um céu azul. Todas as aves do mundo cantavam.

Livro 3 O cavalo e seu menino Capítulo 10 - Um eremita no caminho

Depois de várias horas de jornada, o vale se alargou; o rio que seguiam afluía a um rio mais largo e turbulento, que descia da esquerda para a direita, na direção do poente.
Bela paisagem desvendava-se, com cerros baixos, um após o outro, no sentido das próprias montanhas do Norte. Alteavam-se à direita cumes rochosos, dois deles riscados de neve nas arestas. À esquerda, colinas de pinheiros, gargantas estreitas, picos azulados que se reproduziam até onde a vista podia alcançar. A cordilheira na frente abaixava-se para o que decerto deveria ser o desfiladeiro que levava de Arquelândia a Nárnia.
— Bru-ru-ru, o Norte, o verde Norte! — relinchou Bri.
De fato, as colinas mais baixas pareciam a Shasta e Aravis muito mais verdes e vivas do que o normal, já que os seus olhos eram acostumados à paisagem do Sul. O entusiasmo cresceu quando chegaram em algazarra ao ponto de encontro dos dois rios.
O rio que rolava das montanhas mais altas era por demais veloz e encachoeirado para que lhes ocorresse a ideia de cruzá-lo a nado. Mas, depois de investigar rio acima e rio abaixo, acabaram achando um lugar que poderia ser vadeado. O ronco das águas, o ar frio, as libélulas, tudo aumentava a estranha emoção de Shasta.
— Meus amigos, estamos em Arquelândia! — disse Bri, com orgulho, a chapinhar na direção da margem norte. — Acho que este é o rio que chamam de Flecha Sinuosa.
— Só espero que cheguemos a tempo — murmurou Huin.
Depois começaram a subir, lentamente, ziguezagueando quase sempre. Nem estradas, nem casas à vista. Ao invés de agrupadas no que se poderia chamar de uma floresta, as árvores se dispersavam por todos os lados. Shasta, que passara toda a vida em campos de poucas árvores, jamais vira tantas e tão diferentes. Coelhos debandavam à aproximação deles, e um bando de gazelas saiu de repente correndo pela mata.
— Não é mesmo uma maravilha?! — exclamou Aravis.
Shasta virou-se na sela e olhou para trás: nem o menor sinal de Tashbaan; só o deserto, sempre o mesmo, exceto a garganta verde pela qual haviam passado, estendendo-se até o horizonte.
— Ei, o que é aquilo? — disse ele de repente.
— Aquilo o quê? — perguntou Bri, virando-se.
Huin e Aravis fizeram o mesmo.
— Aquilo. Parece fumaça. Será um incêndio?
— Tempestade de areia, acho — replicou Bri.
— O vento não está tão forte assim para levantar tanta areia — disse Aravis.
— Vejam! — exclamou Huin. — Umas coisas brilhando. São elmos... e armaduras. E estão andando... andando para cá.
— Por Tash! — exclamou Aravis. — É o exército. É Rabadash.
— Sem dúvida — concordou Huin. — É o que eu temia. Depressa! Temos de chegar a Anvar antes deles — e, sem outra palavra, pôs-se a galopar.
Bri levantou a cabeça e fez o mesmo.
— Vamos, Bri, vamos! — incentivava Aravis.
Foi uma árdua corrida para os cavalos. A cada crista de serra sucedia um vale, depois outra crista, depois outro vale; embora soubessem que seguiam mais ou menos a direção certa, ninguém tinha ideia da distância que os separava de Anvar. Do alto de uma serra, Shasta olhou novamente para trás: em vez de uma nuvem de pó, viu um bando escuro movendo-se na margem do rio.
Pareciam formigas procurando uma passagem.
— Rápido! — gritou Aravis. — Era melhor não ter vindo, se fosse para não chegar a Anvar antes deles. Galope, Bri, galope! Afinal, você é um guerreiro!
Shasta ficou calado, pensando: “O coitado já está dando o máximo!” Bri alcançara Huin e ambos corriam lado a lado sobre a relva. Parecia impossível que Huin pudesse resistir por muito mais tempo.
De repente, um barulho atrás deles deixou-os completamente atônitos. Não era como esperavam, o barulho de cascos e tinidos de armaduras, mesclados talvez com gritos de guerra calormanos.
Shasta percebeu logo do que se tratava: era o mesmo rugido que ouvira na noite do encontro com Aravis e Huin. Bri também percebeu. Seus olhos reluziram, vermelhos, e suas orelhas deitaram-se para trás. Só então descobriu que não ia tão veloz quanto podia.
Shasta imediatamente notou a mudança de velocidade. Em poucos segundos ultrapassaram Huin. “Não é justo!”, pensou Shasta, “achei que aqui estaríamos a salvo de leões.”
Tornou a olhar para trás. Tudo nítido: uma criatura imensa e fulva estava atrás deles, com o corpo roçando no chão, como um gato que se prepara para saltar a uma árvore quando um cachorro estranho entra no quintal. E se aproximava cada vez mais.
Ao olhar de novo para a frente, outra surpresa: o caminho estava impedido por um muro verde de uns três metros de altura. No centro do muro havia um portão aberto. Bem no meio da entrada do portão estava um homem alto, vestido com um manto alaranjado, apoiando-se numa bengala. A barba quase lhe batia nos joelhos.
Shasta viu tudo de relance e virou-se novamente para trás. O leão já roçava com as garras as pernas traseiras de Huin, que não tinha mais esperança nos olhos esbugalhados.
— Vamos socorrer Huin — gritou Shasta na orelha de Bri.
Bri mais tarde garantiu não ter ouvido nada, ou não ter entendido; como foi, em geral, cavalo de palavra, devemos acatar o que disse.
Shasta puxou os pés dos estribos, virou as pernas para o lado esquerdo, hesitou durante um pavoroso centésimo de segundo e pulou. Doeu horrivelmente, mas, antes de ter consciência disso, já ia cambaleando para ajudar Aravis. Jamais tinha feito uma coisa dessas em toda a vida e mal sabia por que estava fazendo isso naquele instante.
Um dos mais terríveis ruídos do mundo, um berro de cavalo, partiu dos beiços de Huin. Aravis debruçava-se sobre o pescoço dela, tentando puxar a espada. E já os três – Aravis, Huin e o leão – estavam quase em cima de Shasta. O leão ergueu-se nas patas traseiras, imenso, e estendeu as terríveis garras da pata direita para Aravis, que deu um grito e rodopiou sobre a sela. O leão atingiu os ombros dela. Transtornado pelo terror, Shasta conseguiu aproximar-se da fera, sem um porrete, sem uma pedra na mão. Gritou, bobamente, como se o leão fosse um cachorro: “Vai para casa! Já para casa!” Por uma fração de segundo viu-se cara a cara com o leão, a um palmo da bocarra escancarada. Aí, para seu absoluto espanto, o leão, ainda sobre as patas traseiras, refreando-se de súbito, virou-se e saiu em disparada para trás.
Shasta correu para o portão do muro verde. Huin, tropeçando e quase caindo, transpunha naquele instante o portão. Aravis ainda se mantinha na montaria, com as costas banhadas de sangue.
— Entre, minha filha, entre — dizia o homem de longas barbas. — Entre, meu filho.
E Shasta entrou ofegante.
O portão fechou-se e o estranho barbudo já ajudava Aravis a desmontar.
Estavam num largo pátio circular, cercado por uma sebe alta. Também via-se ali um tanque cheio de água absolutamente tranquila. A árvore mais bonita que Shasta vira na vida sombreava o tanque e, além deste, ficava uma casinha de pedra coberta de folhas de palmeira. Ouviam-se balidos, e a um canto vagavam umas cabras. O chão era recamado de relva.
— O senhor... o senhor... é o rei Luna de Arquelândia? — disse Shasta, sem fôlego.
O velho fez que não.
— Sou o eremita. Não perca tempo com perguntas, meu filho. Obedeça. Esta senhorita está ferida. Seus cavalos estão extenuados. Neste momento Rabadash está encontrando um vau no Flecha Sinuosa. Se correr agora, sem parar para descansar, chegará a tempo de advertir o rei Luna.
O coração de Shasta quase parou ao ouvir essas palavras, pois já não lhe restavam reservas de força. Por dentro rebelava-se contra o que lhe parecia a crueldade da missão. Ainda não aprendera que a recompensa de uma boa ação é geralmente ter de fazer uma outra boa ação, mais difícil e melhor. Mas apenas perguntou:
— Onde está o rei?
O eremita apontou com o bastão:
— Olhe. Do outro lado do portão por onde você entrou, há um outro portão. Abra-o e siga em frente, sempre em frente, por terreno plano ou escarpado, macio ou duro, seco ou úmido. Eu lhe garanto que encontrará o rei Luna, sempre à frente. Mas corra, corra, corra sempre!
Shasta assentiu com a cabeça e desapareceu no portão, correndo. O eremita ajudou Aravis a entrar na casa. Depois de bastante tempo regressou ao pátio, dizendo para os cavalos:
— É a vez de vocês, meus primos.
Tirou as rédeas e as selas de ambos e os escovou melhor do que o faria o cocheiro de um rei.
— Não pensem mais em problemas, meus primos, e repousem. Aqui têm água e capim. Depois que eu ordenhar minhas primas, as cabras, vocês poderão comer uma papa de farelo.
— Senhor — interveio Huin, só agora recuperando a voz — a tarcaína vai se salvar?
— Eu, que sei muitas coisas do presente — replicou o eremita com um sorriso — pouco sei das coisas futuras. Por isso não sei se qualquer homem ou mulher ou animal, em todo o mundo, estará ainda vivo quando anoitecer hoje. Mas incline-se à esperança. A moça provavelmente viverá.
Ao voltar a si, Aravis viu-se deitada de bruços numa cama rente ao chão, mas extremamente macia, em um quarto de paredes de pedra. Sem se lembrar do que acontecera, tentou mudar de posição, mas sentiu terríveis dores nas costas. Então lembrou-se de tudo.
O eremita entrou, carregando uma vasilha de madeira.
— Como está, minha filha?
— Minhas costas doem muito, mas estou bem.
Ajoelhando, ele colocou a mão na testa de Aravis e tomou-lhe o pulso.
— Não tem febre. Ficará boa. Poderá levantar-se amanhã. Beba isto.
Levou a vasilha aos lábios da moça, que fez uma careta, pois o gosto do leite de cabra assusta um pouco quem o toma pela primeira vez. Mas Aravis bebeu tudo e sentiu-se melhor.
— Pode dormir quanto quiser, filha. Seus ferimentos estão bem tratados; ardem, mas não são graves. Deve ser um leão estranho: em vez de arrancá-la da sela e meter-lhe os dentes, apenas lanhou as suas costas. Dez lanhos: dolorosos, mas nada profundos nem perigosos.
— Tive sorte.
— Minha filha: já vivi cento e nove invernos e jamais encontrei uma coisa chamada sorte. Há algo de misterioso no que está acontecendo, mas esteja certa, se precisamos saber o que é, saberemos.
— E quanto a Rabadash e os seus duzentos cavalos?
— Acho que não passarão por aqui. Devem ter encontrado um vau no rio e seguido para leste. De lá tentarão cavalgar em linha reta para Anvar.
— Coitado de Shasta! Tem de ir muito longe? Chegará primeiro?
— Há muita esperança.
Aravis deitou-se de lado.
— Dormi durante muito tempo? Parece que está ficando escuro.
O eremita olhou pela única janela que dava para o norte.
— Esta escuridão não é a da noite. As nuvens estão vindo do Pico da Tempestade. O mau tempo aqui sempre chega de lá. Haverá forte cerração hoje à noite.
No dia seguinte, tirando a dor nas costas, Aravis sentia-se tão bem que, depois de comer mingau e tomar leite, levantou-se da cama, autorizada pelo eremita. Foi imediatamente conversar com os cavalos. O tempo mudara, e o pátio, como uma grande taça verde, transbordava de luz.
Huin deu um trote até Aravis e deu-lhe um beijo equino.
— Onde anda Bri? — falou Aravis, depois das perguntas recíprocas de “como está se sentindo?”, “dormiu bem?”.
— Está ali — respondeu Huin, apontando com o focinho para um canto do pátio. — Gostaria que você conversasse com ele. Não consegui arrancar-lhe uma palavra.
Foram encontrar Bri virado para a sebe; apesar de ter ouvido o ruído dos passos, não se voltou para recebê-las.
— Bom dia, Bri — cumprimentou Aravis. — Como está passando?
Bri resmungou qualquer coisa que ninguém entendeu. Aravis continuou:
— O eremita diz que provavelmente Shasta chegará a tempo; acho que assim acabam os nossos problemas. É Nárnia, enfim, Bri!
— Nunca mais verei Nárnia! — disse Bri, baixinho.
— Não está se sentindo bem, meu caro? — perguntou a moça.
Só então Bri virou-se para ela, com uma cara de tristeza que só os cavalos têm.
— Vou voltar para a Calormânia — disse.
— O quê!? Vai voltar para a escravidão?!
— Vou. Só sirvo para ser escravo. Com que cara vou chegar a Nárnia? Deixei uma égua, uma moça e um rapazinho entregues aos leões e saí em disparada para salvar a minha mísera carcaça!
— Todos nós saímos em disparada — disse Huin.
— Shasta, não! — fungou Bri. — Pelo menos correu na direção certa: para trás. E é isto de que ainda mais me envergonho. Eu, que me proclamo um cavalo de guerra e me vanglorio de mais de cem batalhas, ser batido por um rapazinho humano: uma criança, um mero potrinho que jamais empunhou uma espada, e que jamais teve bons exemplos em sua vida!
— Entendo — disse Aravis. — Estou sentindo a mesma coisa. Shasta foi maravilhoso. Também eu sou ruim, Bri. Desde que nos encontramos, trato Shasta com superioridade... E é ele, afinal, que está acima de todos nós. Mas creio que é melhor ficar e pedir-lhe desculpas do que voltar para a Calormânia.
— No seu caso, estou de acordo — respondeu Bri. — Você não está desgraçada, mas eu perdi tudo.
— Meu bom cavalo — disse o eremita, que se aproximara sem ser notado, pois seus pés descalços nem chegavam a fazer barulho sobre o relvado. — Meu bom cavalo, você não perdeu nada, a não ser a sua autoestima. Que é isso, meu primo? Não afaste de mim as orelhas. Se você de fato é tão humilde como falava há um minuto, tem de saber ouvir. Você não é propriamente o grande cavalo que pensava ser, por estar vivendo entre infelizes cavalos mudos. É claro que era mais valente e mais inteligente do que os outros. Mas você não podia ser de outra forma. Isso não significa que será alguém especial em Nárnia. Mas, enquanto souber que não é ninguém em especial, será um cavalo muito honrado. E agora, se você e minha prima quadrúpede me acompanharem até a porta da cozinha, iremos providenciar-lhes mais um pouco de mingau de farelo.